Antigamente existia o juiz ladrão, cantado em prosa e verso por quem não menos que Nelson Rodrigues, o saudoso Nelson Rodrigues, com suas ...
Antigamente existia o juiz ladrão, cantado em prosa e verso por quem não menos que Nelson Rodrigues, o saudoso Nelson Rodrigues, com suas frases lapidares e suas crenças inusitadas. Ele, por exemplo, não acreditava em “honestidade, sem acidez, sem dieta e sem úlcera”. A honestidade era um sofrimento mal disfarçado!
Faltava ao Juiz honesto “a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista”. A mesma vigarice que emanava das torcidas, que com razão e sem a mesma prorrompiam em vaias contra o apito, toda vez que este punia o seu time do coração. O estádio de futebol era uma vigarice só.
Como era doce e divertida a vigarice dos estádios!
Entre o juiz e o torcedor havia uma cumplicidade reversa. Para o torcedor o juiz não passava de um soprador de apito, um canalha. O Juiz, contudo, via o torcedor como um inimigo nato, um detrator, um inconformado.
O maior cronista esportivo de todos os tempos, nos conta, lá pelos idos de 1917, que um Juiz gatuno levou bola dos dois lados, roubou desenfreadamente para ambas equipes. “Ao soar o apito final, os 22 jogadores partiram para cima do ladrão.” É voz corrente que o meliante está correndo até hoje, pulando muros e galinheiros.
Essa figura tão carismática desapareceu. Há muito não se tem notícias dos galinheiros em polvorosa. No futebol contemporâneo, “o canalha pode existir mais contido, frustado, inédito, sem função e sem destino”.
O Juiz de futebol continua um canalha, mas um canalha moderno, midiático, eletrônico. O novo canalha é feito de luzes e cores, medidas e traços, engenhos e tecnologia. Ele não entra em campo, apita de fora, com tal veemência e certidão que nenhum dos mortais tem a audácia de vaiar.
Justiça se lhe faça, o vigarista moderno não fala a língua dos homens. Fala um dialeto cintilante e de difícil compreensão, tanto explica, como confunde. Está acima da razão humana e só castiga os mais fracos e desamparados e faz calar a voz da vênus platinada. Talvez por esta razão, não seja encontrada saltando muros e galinheiros, como nos bons tempos de Nelson Rodrigues.
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