A cidade estado de Atenas, famosa por ter sido o berço da democracia moderna, possuia 155 mil habitantes à época de Péricles, ...
A cidade estado de Atenas, famosa por ter sido o berço da democracia moderna, possuia 155 mil habitantes à época de Péricles, auge da vida democrática dos gregos. Desses, a metade, cerca de 75 mil habitantes, eram escravos, destituídos de direitos civis e políticos. Não votavam, nem paticipavam da Ágora, onde eram discutidos e decidimos os assuntos públicos; Aristóteles, o filosofo até hoje tão admirado, não hesitava em dizer: "a Humanidade se divide em duas: os senhores e os escravos". Assim era a decantada Democracia ateniense, privilégio dos metecos, todos eles comerciantes, funcionários públicos, proprietários de terras e de escravos.
Não posso deixar de ver na democracia tricolor uma certa semelhança, ainda mais porque a ágora tricolor acaba de escolher o presidente do clube, com alamante e esperada maioria.
Todos nós, torcedores do Bahia, desejamos ver prosperar a democracia no nosso amado clube. Todavia, no exato momento em que o Esquadrão amarga inqulificaveis derrotas no campo de jogo, os nossos eleitores sufragam, em memorável votação, o principal responsável pelo desastre atual.
Tal contradição nos convoca a uma reflexão, tão serena quanto responsável, sobre a natureza de nossa necessária Democracia.
Será ela uma democracia de metecos num clube de massas? O tricolor é um clube de todos, porém a maioria dos seus torcedores, os que estão na popa e não na proa da grande embarcação, não compareceram ao continente eleitoral.
Não será absurdo supor que os sócios -eleitores nesta jornada- representam os que não tem voz e voto ou terminam por configurar uma oligarquia pecuniária, semelhante aos que detinham o poder do voto nos regimes censitários?
Um clube não é uma fábrica de salsichas, na qual seus sócios, os investidores, detentores de cotas de participação, decidem sobre os rumos da empresa. É sabido que um clube é uma arqueologia de sentimentos e paixões, cujos rumos não podem ser decididos por uma minoria de afortunados, ainda que estes representem a fina flor de uma classe média de torcedores.
Quanto maior tenha sido a vantagem eleitoral dos eleitos, em condições semelhantes a uma eleição de socios oligarcas, maior será a ilegitimidade dos eleitos. Esta eleição foi uma bofetada na cara dos que sofrem, choram, lamentam e exconjuram a equipe de futebol mais vazada da competição e a que ostenta o time titular mais envelhecido e decadente da temporada.
Se o Bahia deseja praticar uma Democracia de verdade não substitua seus torcedores por seus sócios e invente uma nova institucionalidade democrática, sem metecos e sem a sociedade descrita por Aristoteles.
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